Zombiefication

No Asteroid, em Sorocaba. Onde eu morro e volto avida todos os sábados

Barcos ao vento

Nas profundezas
do azul revolto
Desses suaves
mares mornos

No profundo
azul materno

Dessas ondas

leves e soltas

Se perdeu
a memória

Do dito
de menos
Pelo pensado
de mais.

Circo Lar

Sou o palhaço fútil, a maquiagem que escorre com o suor dos pulos de alegria malucos. Sou a paixão encarnada: sofro, faço sofrer, mas vivo.

Meu picadeiro é o mundo, não perco oportunidades de ser insólito e fingir ser o que não é. A vontade nunca me é pouca, pois a fome de mais vida me leva para onde eu quiser.

Sou a vitima do trote inverso, sou sério porque me sinto completo me encaixando onde não é meu lugar – transpiro para me enquadrar, mas me encaixo naturalmente.

Carta ao amor futuro

Entenda, querida, entenda: estou aqui e sou o filho das eras perdidas em nós mesmos. Já te disse que sou assim: meio bobo e meio cego, mas enxergo menos do que sinto. Gostaria tanto de poder resolver o mundo que nos separa, seria tão fácil acertar os nossos relógios, pois somos feitos um para o outro, mas estamos sempre em tempos errados.

Quando sonhamos com nós mesmos vemos a felicidade distante de uma lembrança bonita, de tantas tequilas tomadas, de tantas besteiras ditas e de tantos projetos combinados. Vemos que nos completamos pela presença, mas somos mais nós mesmos na ausência – dois corpos etéreos buscando constantemente possuir novos corpos.

Isso é o que nos define, mas também tem aquela necessidade de sermos inglórios! Queremos ser a contracultura encarnada, queremos ser o inverso do certo, mas não o errado. Somos antíteses, feitas de dogmas e clichês tão velhos que não poderíamos ser considerados modernidade.

Porém, somos tão completos nessa bagunça. Como já lhe disse, somos completos por nós mesmos e somos o mesmo. Tão simples, mas tão complicados, porque desafiar as leis da física gera paradoxos sem tamanho – esses dois corpos teimam em querer ocupar o mesmo espaço.

Como nos resolvemos? A pele fala mais alto! O contato canta mais suave! A transgressão divina da dessacralização redime no que nos transformamos.

Nessas voltas nos tornamos mais verdadeiros, mas estampamos nossas incertezas em nossos atos. Somos contrários ao que pregamos, mentimos para o mundo quando falamos a verdade e fingimos sentir o que sentimos mesmo sentindo de fato. Pessoa teria inveja de nossos atos, diria que encarnamos suas palavras e que representamos seus delírios, diria que somos as pedras sobre os pés de seus personas ou que somos os fantasmas que o assombra.

Somos isso, fantasmas de nós mesmos, assombrando os nossos pensamentos e fazendo nossos sonhos mais soltos. Vivemos para nós mesmos, somos nossos grandes amores. Somos os maiores momentos, as histórias mais malucas, as lembranças mais bobas. Somos aquela caixa de recordações com cartas de ex namorados, que perdemos em nossa bagunça diária para ser encontrada anos depois – capsulas do tempo deixadas lá de propósito, para tirarem sorrisos saudosistas desses peitos de poeta.

Somo apenas, mas vivemos em tempos diferentes. Só vamos nos encontrar quando um dia algum dos dois lados resolver acelerar seu relógio, mas sei que tendo a preferir que um dos lados diminua a velocidade dos ponteiros, assim o tempo passará mais devagar e teremos mais dias do que antes.

Ao Futuro

O reflexo cristalino tocou em cheio
Cintilando das claras safiras embora
No plexo da memória no meio,
Dividida entre as obras do agora,

As translucidades feitas de luz
Rarefeita nos momentos a dois
Nos acalentem – monstros! – como aia.

A saudade do presente veio amiga
Tocando a pele com suave demora,
Cantando ao peito que leve abriga
O bonito, o farto e o eterno por hora.

É filho do errado o que nos seduz,
Desfeitos entre o pra sempre e o depois
Nossos passos marcham por toda a praia.

Dedicado ao meu eu que me entende, compartilha-me e é pra sempre.

25 de agosto de 2010.

A Roda girou

A pele formiga, não sei como dizer isso de forma mais clara. É fácil exprimir em palavras o sofrimento, mas falar sobre a felicidade é praticamente impossível – bem, pelo menos para mim. Estranho assumir isso e não conseguir falar sobre o que te faz bem. Já pararam para pensar que nunca fazemos odes com a mesma intensidade com que escrevemos sobre nossas frustrações?

O mundo das letras é feito por reclamões de marca maior. Exceto a ficção, a maioria do que se vê por aí é um amontoado de frustrados jogando palavras ao vento.

Talvez façamos isso porque queiramos passar mais tempo sentindo e vivendo a felicidade do que tentando documentá-la em textos. Será esse o motivo porque sempre lembramos com mais detalhes das coisas que nos fizeram sofrer? Está tudo lá escrito, então é fácil termos referências sobre o acontecido.

Enquanto bate essa vontade maldita de expressar as coisas boas que me acontecem, vou levando a vida saboreando essa tensão e vontade de colocar de forma racional esse mar de mudanças que acontece em mim.

Mas ainda estou com essa pulga atrás da orelha, querendo saber porque diabos não sai uma palavrinha sequer sobre o que me faz explodir. Talvez sejam os medos indo embora e a confusão que se abate depois que você passa por um período muito extenso de privações. Talvez seja a certeza se formando de que caminho devo seguir. São tantos esses talvez que acabo por me sentir mais como uma barata tonta de inseticida.

Nesse meio termo vou pensando no que me faz feliz, no que me faz seguir adiante e planejando as coisas curtas, porque a longo prazo só sei que vem o desconhecido. E que ele o venha, afinal, a vida parece dura, você sofre e seu ponto de referência se torna menos exigente – mas quando você explode de felicidade sente todo o seu efeito, como uma droga usada depois de anos de privação.

Resta-me então ser feliz e me apaixonar perdidamente por essa vida que tenho e pela Roda da Fortuna. E não há como lembrar de Cândido, livro maravilhoso de Voltaire. No eterno ir e vir das coisas, sempre temos o que é de pior e de melhor. Delicio-me hoje com as uvas, e vou me lambuzar com elas.