O País das Maravilhas
Um lugar para o Coelho fugir da Alice
Um lugar para o Coelho fugir da Alice
Sep 1st
Nas profundezas
do azul revolto
Desses suaves
mares mornos
No profundo
azul materno
Dessas ondas
leves e soltas
Se perdeu
a memória
Do dito
de menos
Pelo pensado
de mais.
Sep 1st
Toda vez que ela acordava a cidade tinha a mesma cor. Tomava seu café com o mesmo gosto de ontem e trocava a roupa de cama com o mesmo cheiro de dor. Sentia cada dia de uma maneira antiga, como se visse os melhores momentos de sua vida gravados em fita cassete – e quem, hoje em dia, sabe o que é uma fita cassete?
Você julga uma pessoa pela soma de coisas que ela parece ser e julga também uma pessoa pelas histórias que ela deixa de contar. Elisa não contava nenhuma delas. Guardava tudo dentro de um pote emocional que se assemelhava a um dos depósitos de urânio de Chernobyl. Ela era uma hecatombe pronta a eclodir de seu ovo, mas fingia bem não sentir mais do que a ressaca eterna.
Suas noites eram feitas de pequenos momentos. Ela fingia não ligar muito para o que passava na TV, mas sempre dava uma olhada nas capas das revistas sobre novelas para saber o que estava acontecendo – ou esticava o pescoço para entender o que era aquela amontado de notícias que passava as 20h na televisão do BH lanches.
Vida pura, vida suja – mas vida.
Nessa inconstância de dessabores ela passava o seu cotidiano. Migrando entre seu trabalho como Diretora de Arte de uma agência famosa e sua casa. Lá mimava seus gatos, mimava suas plantas e planejava sua próxima tatuagem. Um dia de cada vez, na amargura do cotidiano paulistano, perdida entre prédios, pessoas e bêbados.
Seu apartamento era o espelho perfeito de sua personalidade, minusculo e bagunçado, cheio de pelos de gato e papéis pelo chão. Era um reflexo direto do que era ela e do que se abatera sobre ela.
Toda vez que uma amiga vinha lhe visitar e começava a contar sobre seus casos e descasos, ela virava um shot de vodka e soltava:
… eu sigo que relacionamentos são apenas nocivos. As pessoas tem que aprender a viver para si mesmas, olhe eu, por exemplo, tenho casa própria e me viro muito bem sozinha…
E o discurso continuava, como se precisasse convencer ela mesma do que dizia para os outros.
Quando saia para dançar (sim, acreditem, ela era uma mulher um pouco frigida, mas como toda criatura do gênero precisava do ritual da dança para se completar) sempre aparecia uma figura interessante que queria flertar, mas logo ela apagava um cigarro em seu próprio braço para lembrar que amor dói. A pele ardia vermelha e ela sorria de prazer.
Ela tinha duas chagas profundas, uma em cada pulso, reflexos de cigarrinhas que ela apagou tão profundamente que renderam problemas de circulação nas mãos. Seus braços pareciam um trabalho de pontilhismo masoquista – eram tantas as cicatrizes que ela podia contar quantas vezes tinha avisado pra si mesma que o amor machuca e deixa marcas.
Era uma boa tática, afinal, queimaduras demoram semanas para sarar, a aparência não é bonita e a gente sente elas ardendo mesmo depois que as feridas fecham por inteiro. Ótimas metáforas! Ótimas alegorias para ilustrar que seu peito estava em cacos fazia já bons anos.
O pior de tudo era que Elisa era uma garota bonita. Sim, uma garota acima da média da beleza. Tinha olhos verdes, cabelos loiros, pele bem clara, corpo esguio e uma inteligência aguda. Tinha um humor ácido, mas intrigante, só que era amarga por dentro e fazia questão de mostrar isso ao mundo com seus dogmas usados como escudos.
Eram frases como “evito me envolver, porque no final, sobrarei só eu” e “todas as pessoas querem você como bife, depois vão te cagar e puxar a descarga sem se importar com o que fez por elas” – e essas frases estavam rabiscadas em centenas de banheiros pela cidade de São Paulo (e em alguns ônibus intermunicipais, trens e paredes perdidas por aí).
Um dia, sem querer, Elisa esqueceu os cigarros antes de sair e ir para um barzinho perto de onde morava. Rua Frei Caneca, perto dos antrinhos queridos que ela adorava desde sua adolescência.
Resolveu que naquele dia não fumaria, afinal, todos os avisos diziam para não fumar e que isso fazia mal para a saúde. Não custava nada verificar se haveria melhora em um dia de luta contra o cigarro – porque estar na moda é estar sempre parando de fumar!
Encostou em um barzinho, pediu uma cerveja. Não falou a marca. Queria apenas o prazer de beber sozinha. Esperava que uma amiga aparecesse. Papo jogado fora numa sexta-feira a noite, sem gatos, sem casa e sem problemas maiores do que falar mal do trabalho alheio e apontar defeitos nas pessoas por ai.
Foi nesse dia que ela conheceu Carlos. Um cara simpático que parou em sua mesa. Ela não tinha cigarros. Estava indefesa. Estava aberta e não podia marcar na pele um susto, um aviso.
Conversaram. No começo ela negava acesso, mas aos poucos Carlos foi entrando por suas defesas. Falaram sobre os problemas alheios, apontaram o defeito das pessoas, xingaram os amores e falaram muito sobre De Profundis de Wilde.
Deram risadas sobre os problemas sentimentais de seus amigos, vociferaram que o amor não valia nada e que as pessoas supervalorizavam os relacionamentos intimos.
No final da noite se encontraram novamente, mas foi no apartamento não tão apertado assim de Carlos. Ela se apaixonou naquele instante. Realizou seu amor e seguiu para a lua. Pensou em poesia, vinho tinto, música clássica e em pôneis. Pensou em pandas fofos. Pensou em borboletas no estomago. Pensou em Amelie Polin. Pensou em Jaspion, Changeman e Godizlla. Pensou na sua infância, no primeiro beijo e na perda da virgindade. Pensou na paixão. Pensou no seu nascimento. Pensou nas coisas boas da sua vida. E chegou ao clímax do amor.
Dois dias depois voltou ao seu mundo. Não valia a pena sentir tudo isso de novo, era bom demais para se deixar esvanecer.
Daquele dia em diante passou a fumar charutos.
Aug 31st
Sou o palhaço fútil, a maquiagem que escorre com o suor dos pulos de alegria malucos. Sou a paixão encarnada: sofro, faço sofrer, mas vivo.
Meu picadeiro é o mundo, não perco oportunidades de ser insólito e fingir ser o que não é. A vontade nunca me é pouca, pois a fome de mais vida me leva para onde eu quiser.
Sou a vitima do trote inverso, sou sério porque me sinto completo me encaixando onde não é meu lugar – transpiro para me enquadrar, mas me encaixo naturalmente.
Aug 30th
Entenda, querida, entenda: estou aqui e sou o filho das eras perdidas em nós mesmos. Já te disse que sou assim: meio bobo e meio cego, mas enxergo menos do que sinto. Gostaria tanto de poder resolver o mundo que nos separa, seria tão fácil acertar os nossos relógios, pois somos feitos um para o outro, mas estamos sempre em tempos errados.
Quando sonhamos com nós mesmos vemos a felicidade distante de uma lembrança bonita, de tantas tequilas tomadas, de tantas besteiras ditas e de tantos projetos combinados. Vemos que nos completamos pela presença, mas somos mais nós mesmos na ausência – dois corpos etéreos buscando constantemente possuir novos corpos.
Isso é o que nos define, mas também tem aquela necessidade de sermos inglórios! Queremos ser a contracultura encarnada, queremos ser o inverso do certo, mas não o errado. Somos antíteses, feitas de dogmas e clichês tão velhos que não poderíamos ser considerados modernidade.
Porém, somos tão completos nessa bagunça. Como já lhe disse, somos completos por nós mesmos e somos o mesmo. Tão simples, mas tão complicados, porque desafiar as leis da física gera paradoxos sem tamanho – esses dois corpos teimam em querer ocupar o mesmo espaço.
Como nos resolvemos? A pele fala mais alto! O contato canta mais suave! A transgressão divina da dessacralização redime no que nos transformamos.
Nessas voltas nos tornamos mais verdadeiros, mas estampamos nossas incertezas em nossos atos. Somos contrários ao que pregamos, mentimos para o mundo quando falamos a verdade e fingimos sentir o que sentimos mesmo sentindo de fato. Pessoa teria inveja de nossos atos, diria que encarnamos suas palavras e que representamos seus delírios, diria que somos as pedras sobre os pés de seus personas ou que somos os fantasmas que o assombra.
Somos isso, fantasmas de nós mesmos, assombrando os nossos pensamentos e fazendo nossos sonhos mais soltos. Vivemos para nós mesmos, somos nossos grandes amores. Somos os maiores momentos, as histórias mais malucas, as lembranças mais bobas. Somos aquela caixa de recordações com cartas de ex namorados, que perdemos em nossa bagunça diária para ser encontrada anos depois – capsulas do tempo deixadas lá de propósito, para tirarem sorrisos saudosistas desses peitos de poeta.
Somo apenas, mas vivemos em tempos diferentes. Só vamos nos encontrar quando um dia algum dos dois lados resolver acelerar seu relógio, mas sei que tendo a preferir que um dos lados diminua a velocidade dos ponteiros, assim o tempo passará mais devagar e teremos mais dias do que antes.
Aug 25th
O reflexo cristalino tocou em cheio
Cintilando das claras safiras embora
No plexo da memória no meio,
Dividida entre as obras do agora,
As translucidades feitas de luz
Rarefeita nos momentos a dois
Nos acalentem – monstros! – como aia.
A saudade do presente veio amiga
Tocando a pele com suave demora,
Cantando ao peito que leve abriga
O bonito, o farto e o eterno por hora.
É filho do errado o que nos seduz,
Desfeitos entre o pra sempre e o depois
Nossos passos marcham por toda a praia.
Dedicado ao meu eu que me entende, compartilha-me e é pra sempre.
25 de agosto de 2010.
Aug 23rd
A pele formiga, não sei como dizer isso de forma mais clara. É fácil exprimir em palavras o sofrimento, mas falar sobre a felicidade é praticamente impossível – bem, pelo menos para mim. Estranho assumir isso e não conseguir falar sobre o que te faz bem. Já pararam para pensar que nunca fazemos odes com a mesma intensidade com que escrevemos sobre nossas frustrações?
O mundo das letras é feito por reclamões de marca maior. Exceto a ficção, a maioria do que se vê por aí é um amontoado de frustrados jogando palavras ao vento.
Talvez façamos isso porque queiramos passar mais tempo sentindo e vivendo a felicidade do que tentando documentá-la em textos. Será esse o motivo porque sempre lembramos com mais detalhes das coisas que nos fizeram sofrer? Está tudo lá escrito, então é fácil termos referências sobre o acontecido.
Enquanto bate essa vontade maldita de expressar as coisas boas que me acontecem, vou levando a vida saboreando essa tensão e vontade de colocar de forma racional esse mar de mudanças que acontece em mim.
Mas ainda estou com essa pulga atrás da orelha, querendo saber porque diabos não sai uma palavrinha sequer sobre o que me faz explodir. Talvez sejam os medos indo embora e a confusão que se abate depois que você passa por um período muito extenso de privações. Talvez seja a certeza se formando de que caminho devo seguir. São tantos esses talvez que acabo por me sentir mais como uma barata tonta de inseticida.
Nesse meio termo vou pensando no que me faz feliz, no que me faz seguir adiante e planejando as coisas curtas, porque a longo prazo só sei que vem o desconhecido. E que ele o venha, afinal, a vida parece dura, você sofre e seu ponto de referência se torna menos exigente – mas quando você explode de felicidade sente todo o seu efeito, como uma droga usada depois de anos de privação.
Resta-me então ser feliz e me apaixonar perdidamente por essa vida que tenho e pela Roda da Fortuna. E não há como lembrar de Cândido, livro maravilhoso de Voltaire. No eterno ir e vir das coisas, sempre temos o que é de pior e de melhor. Delicio-me hoje com as uvas, e vou me lambuzar com elas.
Aug 5th
Olho no relógio, são 22h22. Perdido pelas ruas de São Paulo caminho pensando entre as incertezas do meu cotidiano atribulado sobre as dores que sinto nos joelhos toda vez que o tempo fecha e o frio começa a me incomodar. Todos os dias 25 de janeiro sinto a mesma pontada no joelho direito e uma queimação inconveniente no esquerdo – como se os anos pesassem demais sobre os meus ombros e eu não pudesse mais suportar a carga que eles despejaram sobre mim.
O taxista não é daqueles comunicativos e nem me questiona sobre o tempo ou o que um senhor de aparentes mais de 70 anos vai fazer a essa hora perto do Parque Trianon. Talvez ele suspeite de algo e esteja me julgando. “Esses velhos tarados que querem carne nova” – como queria que fosse fácil assim, só uma fantasia por pegar um corpo tenro de mocinho de vinte anos em uma realização homossexual ou a tara clássica da retomada do poder da juventude através da pele de outrem.
Do Morumbi até lá não deram aqueles famosos 60 reais que eu já sabia bem. Desembarquei, com a minha bengala já gasta e marcada com meus dedos suados. Não houve questionamento. Atravessei a rua e segui do lado oposto ao parque, descendo umas duas quadras para dentro dos Jardins.
Ninguém sequer reparava em mim. Era como um mendigo, invisível aos olhos das pessoas a minha volta. Nem os garotos de programa se importavam com aquele velho, perto das 23h, andando por aquelas ruas.
Do meu lado, um casal passa. Desviam o caminho de forma automática e, com a força da juventude, seguem com passos mais firmes enquanto manco apoiado em minha amiga gasta. Eles seguem meia quadra e são abordados por três homens. Em menos de um minuto a bolsa da garota, o celular do rapaz e todo o dinheiro do casal são levados.
Os três homens seguem adiante com passos ligeiros e determinados. O casal atravessa a rua e reclama com os garotos de programa do outro lado da rua.
— Vocês viram tudo e não fizeram nada – grita o menino, revoltado.
Uma viatura policial chega. Todo aquele show de sempre armado: luzes girando, prancheta na mão e dois PMs seguindo na direção para onde os três bandidos seguiram. Mas ninguém sequer repara em mim, que vi tudo. Fixei-me nos rostos e observei para onde os assaltantes seguiram. Vi que estavam armados e lembraria do rosto de cada um. Coisas que a idade nos ensina, mesmo com a visão ruim, que reparar no que acontece a nossa volta é vantagem. Creio que isso seja porque para mim o tempo passa mais devagar – nos finais, ficamos mais atentos a cada segundo, esperando pelas belezas que o tempo nos traz.
Sigo invisível pelo meu caminho. Uma quadra parece o trajeto inteiro da Av. Paulista e seus quilômetros de maravilhas. Os fazia em 30 minutos, mas hoje levo isso para andar apenas um trecho insignificante. O preço da qualidade é perder a quantidade, verdade absoluta.
Chego a frente da porta do casarão que venho todas as quintas. Olho em meu relógio e ele ainda marca, diferente do que imaginava, 22:22.
Todos aqueles dias que se passaram deixaram as coisas mais claras para aquele grupo de setentões: as coisas mudaram. O tempo já não era mais o mesmo. A vida seguia de maneiras distintas para cada um. A invisibilidade dos anos, a fraqueza dos corpos, a solidão inserida em cada brecha das suas vidas e o afastamento das coisas que lhe eram comuns os unia em um clube de privilegiados.
Lá estavam muitos Moisés, Aristides, Athos, Genival e tantos outros nomes que tinham amarrados a eles sobrenomes clássicos. Eram descendentes de libaneses, italianos, portugueses e tantas outras nacionalidades que esculpiram São Paulo durante todo o século XX. A gigante tinha o mundo em suas veias, mas elas se tornaram entupidas, como as artérias de alguns daqueles velhos esparramados pelo salão.
Todos olhavam abismados para seus relógios e esqueceram o motivo daquela reunião. Eles se reuniam todas as quintas para jogar alguma coisa e papear sobre o passado, para se fazer companhia enquanto os filhos, netos e bisnetos se jogavam pelas suas próprias vidas, enfrentando São Paulo com uma força extra, como se lutassem batalhas épicas todos os dias. Trânsito, violência urbana, sucesso profissional, transporte coletivo superlotado e todas as aspirações que a sociedade impunha rotineiramente a todos que viviam pelas ruas da Pauliceia.
Lá eles fugiam um pouco do seu cotidiano, das suas enfermeiras e da invisibilidade que viviam todos os dias entre a multidão. Lá eles se chamavam pelos nomes, lembravam das coisas que viveram e de como a vida era um pouco mais lenta para eles do que é para os que os sucederam.
Mas hoje, por alguma brincadeira estranha do tempo, todos olhavam para seus relógios, ignorando o fato que os trouxera para lá. Seus relógios estavam parados. Todos marcavam nos ponteiros ou displays digitais o mesmo número. Para todos o tempo lhes dava 22:22.
Dizem por aí que quando você olha muito para o relógio recebe esses números repetidos. É a fome de que o tempo passe. Se você olha muito para os ponteiros é sinal que está ansioso ou que tem tempo sobrando, afinal aqueles que trabalham de verdade e usam o seu tempo normalmente não sabem que hora são: saem todos os dias mais tarde do trabalho e chegam atrasados para seus compromissos pessoais. Quem vive em megalópoles sabem que a vida pessoal é um luxo, o que importa é sobreviver ao tempo que se estingue por entre a pressa mesquinha e os afazeres vorazes.
Outras pessoas, mais supersticiosas, dizem que quando o tempo se repete, seja 10:10, 15:15 ou 19:19, estão pensando em você. Isso também deveria valer para as vinte e duas horas e vinte e dois minutos. Só que todos aqueles senhores, na casa dos 70 anos se questionavam sobre isso. Quem estaria pensando neles nesse momento. E porque os ponteiros pararam. Os relógios digitais ainda piscavam seus alertas de que os segundos contavam, mas os ponteiros dos mais tradicionais haviam simplesmente parado.
Não havia porque todos serem lembrados com tanta vontade assim. Impossível que a vontade de alguém por vê-los fosse tão avassaladora que parasse o tempo. Estavam todos lá, esperando que o ponteiro andasse ou que o dois virasse três.
Durante um bom tempo, nada aconteceu. Todos olharam entre si, como se fosse uma coreografia de bailado, uma trupe de circo sincronizada fazendo suas graças para ninguém.
Não disseram nada.
Apenas olharam para a porta, enquanto viam o vulto com a bengala entrando.
Era Emanoel.
Todos os olhares estavam virados para ele. A recepção não poderia ser mais estranha. Boas vindas calorosas? Longe disso. Aquele conclave de pessoas segurava seus relógios nas mãos, com o rosto pálido, bem além das manchas que a idade traz – todos pareciam estátuas mortuárias do Cemitério da Consolação, mas em todos eles algo novo pulsava.
Jonas, um desses senhores crentes, que já decoraram a Bíblia de cabo a rabo (como forma de provar que a sua vigília era realmente séria), quebrou o silêncio da sala:
— O último livro da Bíblia é o Apocalipse. Seu último capítulo é o 22. O último versículo o 21. O que vem depois?
Todos se entreolharam. Nenhuma palavra. Alguns pensaram sério naquela proposição absurda.
E o silêncio foi quebrado por vários murmúrios e conversas paralelas. Todos eles testavam as suas teorias.
Emanoel estava lá, apoiado na entrada sobre a sua bengala. Não dizia uma palavra. Sentia o peito apertado, como se estivesse invisível mais uma vez.
O que queria dizer aquilo? Era o sinal dos tempos? Era o fim? Ou era apenas um fenômeno desses que a televisão não deixa de dizer? Aquecimento global? Poderia ser isso. Ou aquelas histórias de fenômenos atmosféricos ou magnéticos. Algum gerador poderia ter explodido na vizinhança, causando a paralisia dos relógios.
Não poderia ser. Ele sabia que não poderiam ser nenhuma dessas respostas ou explicações racionais. É comum isso acontecer, lembrava bem. Quando seu primeiro filho faleceu ele fez a mesma coisa. Racionalizou o acidente de carro e a forma como aconteceu. Encontrou motivos para que o Vectra novinho tivesse voado pela Imigrantes abismo a baixo. Isso conforta a mente inquieta, que precisa de algo palpável para considerar como dogma.
E por que pensara no filho? Delírios finais? Alucinação coletiva?
Nada disso, ele sabia que havia algo latejante por baixo da pele, por baixo de seus pensamentos.
Continuou andando e cruzou o salão. Nenhum dos homens olhou de fato para seus olhos, mas alguns pareceram reparar na sua passagem. O toc-toc da bengala ecoava pelo salão, mas o burburinho da conversa cruzada abafava o som – bom, em sua grande parte.
No final do salão estava a sua mesa de sempre e a cadeira onde deveriam estar Aucebiades e Telemaco, seus amigos de conversa furada e de pôquer. Não havia ninguém, só as duas cadeiras vazias. O estranho é que havia uma quarta cadeira, preparada lá para receber mais alguém.
Ignorado pelos outros presentes, tirou o paletó, puxou a sua cadeira, sentou-se calmamente, encostou a bengala ao lado de sua perna esquerda e deixou que o peso da idade fosse aliviado de seus joelhos.
Quando olhou para a frente, havia lá um jovem. Os cabelos louros lhe caiam pelos ombros. Vestia um sobretudo azul. Do seu lado também havia uma bengala. Seus olhos eram azuis, quase da mesma cor que o sobretudo. Seus lábios vermelhos. Seu semblante pálido, com um brilho quase fluorescente, destacava todo o resto.
Com o susto, Emanoel deixou a bengala cair, esparramando pela mesa as cartas do baralho que começara a sacar de seu paletó momentos antes.
O jovem sorriu, juntou as cartas calmamente e disse em um tom cordial:
— Boa noite, Emanoel. Pronto para um jogo de cartas para deixarmos o tempo passar por si só?
As palavras engasgaram de forma estranha na garganta do velho.
— Fique tranquilo. Meu nome é Miguel. Vim ter algumas palavras com você. Espero que não se assuste.
— Tarde demais, meu filho, você já o fez, de certo modo – saiu naturalmente a sentença, sem tremedeira ou aquela angústia anterior.
Entre risadas o jovem continuou:
— Bom, não era minha intenção, realmente, desculpe-me por isso. É complicado fazer essas visitas sem causar algum tipo de comoção. Juro que tentei reduzir qualquer impacto. Mas, como disse, é muito difícil passar totalmente desapercebido.
— Quem ou o que é você realmente, se eu posso perguntar? Essa conversa está, no mínimo, estranha – Emanoel soltou entre os dentes serrados.
Arrumando os cabelos em um rabo de cavalo e fazendo um nó com uma fita, o jovem loiro disse:
— Em primeiro lugar, não sou uma criatura tão diferente de você. Não, não mesmo. Vivo entre a consciência e aquilo que você mais deseja. Digamos que me alimento das realizações dos homens, mas que me satisfaço mesmo é nas resoluções.
Ao terminar a frase, o jovem abriu um sorriso largo, com os dentes brancos a mostra. As coisas não estavam nada claras e a dúvida escorreu ligeiramente pelos lábios de Emanoel:
— Ainda não sei quem você é ou o que veio fazer aqui de fato.
E a resposta seguiu pronta:
— Alguns me chamaram de anjo, Emanoel, mas me considero um negociador de passagens. Sei que não fui claro, mas a poesia também é inerente a mim. Como sou feito de resoluções, sobrevivo das metáforas.
A dúvida mantinha a atmosfera pesada naquela conversa congelada no tempo. A sala parecia ignorar o que acontecia naquela mesa de canto, iluminada pelo diálogo estranho e pela troca de olhares intenso dos dois homens separados pelas rugas, fosse a presença ou falta delas. Continuou então, Miguel, com o rabo de cavalo pronto:
— Vamos colocar dessa maneira: eu já passei por essa mesma coisa que você está passando agora. Fui questionado um dia por alguém que veio com a mesma missão, que é proporcionar-lhe a última epifania.
O velho sentia as palavras ainda confusas, mas elas o penetravam com uma razão nova. Era com ose algumas velas acendessem a sua volta e aquela escuridão pesada se dissipava aos poucos, juntamente com parte do seu cansaço.
— Sente a idade sobre os ombros? Sente os joelhos cansados? O tempo se arrastando e a invisibilidade que parece ter-lhe acometido com o passar dos anos? – Miguel dizia, olhando firmemente para os olhos azuis e cansados que o fitavam agora com um ar totalmente novo.
Emanoel lembrou dos joelhos e do peso que sentia sobre si mesmo nesses anos todos. Pensou nas coisas que aconteciam a sua volta e em como tudo mudara – no supermercado os olhares se desviavam automaticamente e nas ruas as pessoas o ignoravam com cada vez mais frequência. Era como se o mundo excluísse da existência aqueles que já viveram por tempo demais nele.
— Esses são os sintomas da idade. Com o passar do tempo a Cortina que separa os dois mundos acaba se tornando mais fraca. É como se fosse uma película plástica que se desfaz com os anos de contato – e esticou ambas as mãos, fazendo como quem esfrega roupas delicadas sendo lavadas a mão -, é o desgaste natural das coisas. Normalmente as pessoas partem sem saber do que se trata essa divisão dos dois mundos, mas todos sentem esse desgaste. A maioria apenas deixa a casca vazia, sem saber o que acontece de verdade entre o aqui e o depois.
Os sapatos de Emanoel ficaram mais juntos, uma certa folga da pele parecia ter deixado de existir e os dedos pareciam firmes novamente. Miguel olhou para traz por um segundo e continuou:
— Isso que envelhece o homem: sentir o desgaste e o peso das coisas dessa vida lhe levando rapidamente para o outro lado. As experiencias no “mundo real” fazem com que pendamos ao cansaço e nos levam cada vez mais a nos afogarmos do outro lado: como se você estivesse preso a um saco de chumbo em um poço de areia movediça. O problema é que nos agarramos a superfície da areia e isso nos deixa exaustos.
A coisa tomava um sentido mais amplo. E aos poucos os joelhos pareciam parar de latejar. O jovem continuou, mas levantou-se vagarosamente da cadeira enquanto falava, com uma mão nas costas e outra levantada, como se fizesse um discurso para uma plateia de um homem só:
— Meu caro, é isso que chamam de morte. Todas as coisas tendem a um final, mas mal sabem aqueles que ainda não passaram por isso que não é o fim da jornada, apenas a passagem pela Cortina que separa os mundos. Isso acontecerá de novo e de novo, atravessando diversas realidades, diversas vidas e muitos caminhos. É o destino dos seres: passarem por entre os mundos até o centro de tudo. E, antes que me pergunte, não sei onde é esse meio! Conheço apenas poucas das camadas, mas admiro com prazer indivisível toda viagem.
Miguel chegou até as costas de Emanoel, segurando seus ombros, como um bom amigo faz ao dar suporte, mas com a leveza de uma amante que lhe faz carinhos de alento. Desceu vagarosamente os dedos até as mangas do paletó e o peso dos ombros de Emanoel se dissiparam por completo.
Removeu assim o paletó, dando a volta de maneira que os olhos se cruzaram novamente. O jovem loiro brilhava agora de um jeito novo, como se fosse uma estrela perto do horizonte ao amanhecer. Estendeu a mão para Emanoel, que levantou-se com uma leveza nova. Ele sentiu as forças restauradas, como um gole de café pela manhã.
Virou-se para trás, onde havia um espelho. A perplexidade era apenas um das centenas de sentimentos que tempestuavam pela sua mente. A exultação e alegria preenchiam o seu peito.
Olhou seus olhos no espelho e seguiu para o resto do corpo. Era jovem outra vez. A pele restaurada, o cabelo denso e ruivo novamente. Seu corpo no auge dos seus vinte anos e o bigode cintilava como que em chamas, marcando a renovação do seu espirito.
E ele entendeu o que acontecera. Havia atravessado a Cortina. Era a sua primeira passagem, mas compreendeu para onde vão os homens e o porque que deixam as suas cascas vazias – afinal, existe algo depois.
Compreendeu também que havia sido escolhido para algo novo, para algo maior. Estava pronto para todas as outras travessias que viessem, porque a viagem começa nas epifanias.
Todos os presentes olhavam para os seus relógios. Os ponteiros voltaram a andar. Os números dos relógios digitais trocaram de 22:22 para horas distintas, mostrando que as coisas andaram em tempos diferentes para cada um.
E tudo voltou ao que era.
Um arrepio passou pelo pescoço de Aucebíades, que estava sentado ao lado de Emanoel. Reparou que o seu amigo entrou sem falar uma só palavra, sentou-se na mesa de praxe e fitou o horizonte por instantes. Em um suspiro percebeu o peso dos anos sendo removido dos seus ombros, abriu os olhos como se encarrasse a vida que tivera e, lentamente, deixou a leveza deitar sua cabeça sobre seu peito.
Em um sorriso final viu a partida de um companheiro e a tranquilidade do final.
Texto feito em 23/02/2010, mas publicado só agora, como o outro, porque achei que era o momento de nascer.
Aug 4th
A falta é uma coisa tão óbvia quando dormimos em uma cama de casal e sentimos ainda aquela presença fantasma ao nosso lado. Laura sabia que isso era parte da perda. As distâncias haviam tomado uma forma tão densa que não dava mais para negar que era real. Seu namorado não voltaria mais para casa e estava agora a dois continentes de distância, vivendo em Istambul com seu novo amor.
Fazia parte, mas ela não queria que fosse assim. Sempre pensou que poderia fugir do roteiro e fazer uma vida diferente. Pensou o mesmo com os últimos dez namorados – mas com esse último, dizia pra si mesmo, pensou diferente. Talvez fosse porque quem levou o pé na bunda foi ela; poderia ser também porque ela foi trocada por alguém que achasse muito inferior a ela; ou poderia ser ainda porque era verdade o sentimento e dessa vez fosse realmente diferente. Quem vai julgar e saber?
Levantou no meio da madrugada e escolheu aleatoriamente um barzinho no eixo de Pinheiros, qualquer um que tivesse gente bonita e com menos de 25 anos. Queria sentir-se jovem e ser paquerada, mesmo que não fosse dar pra ninguém – essas coisas de sentir o desejo alheio e saber que alguem quer te comer, faz bem pro ego, levanta o humor, dá novas forças e é melhor que creme anti-rugas.
No caminho os pensamentos se perderam entre lembranças, possibilidades e principalmente na tentativa inútil de afastar o looping que se fazia entre momentos bons e a sensação de “membro fantasma” – o braço havia sido amputado, mas ainda estava lá, ela podia sentir.
— Carlos, seu grande filho da puta – sussurrou baixinho para si mesma, enquanto no rádio tocava uma música do Matanza.
Passou pela porta de um ou dois barzinhos. Por mais estranho que parecesse escolheu uma sinuca, próxima a Teodoro Sampaio. Pareceu um lugarzinho gostoso. Ignorou que lá haviam vários homens de mais de quarenta. Entrou, perguntou se tinha mesa livre. Tinha. Pegou a mais próxima do bar, lugar estratégico e pouco movimento até o balcão – mais cerveja, menos suor.
Começou a jogar sozinha, mas reparou que havia alguém sentado sozinho em uma das mesas.
— Um tipinho bem interessante e aparentemente com menos de vinte e cinco – pensou.
Ela olhava as vezes para ele, que ignorava por completo a sua presença. Isso a desconcertava, porque só faltava ela soltar um sinalizador de fumaça ou fazer um topless para tentar chamar-lhe a atenção.
Dois coroas a xavecaram, um com aquele papo bem nojento de botequim e o outro com algo até que criativo, tirou algumas risadinhas, mas rapidamente ganhou um bom “não estou afim, barrigudo”. Queria juventude, bancar a súcubo sem pudor, beber da inconsequência e de algum conteúdo menos “trepadinha entre o trabalho e minha esposa gorda”.
Olhou para o garoto mais algumas vezes, mas logo cansou do joguinho e resolveu ir até o rapaz. Pagou a hora da sinuca, pegou mais outra saideira e caminhou decidida. Não perguntou nada, puxou uma cadeira e sentou-se em frente a ele.
— Olá!
Ele olhou surpreso, e respondeu com um “olá” baixinho, quase um sussurro.
— Meu nome é Laura. Queria conversar com alguém, vim aqui pra isso. E parece que vim pra conversar com você.
— Olá, meu nome é Pedro e vim aqui para falar com alguém interessante. Acho que é você.
Risadas. E que sorriso ele tinha. Laura se perdeu por alguns instantes. Os dentes não eram perfeitos, nem brancos, mas o sorriso mesmo assim era lindo. Daqueles que mostram que a pessoa não é de sorrir muito, mas quando o faz é de verdade.
— Conte-me um segredo – disparou Laura, como um tiro de bazuca direcionado ao peito.
— Segredo? Difícil, eu não tenho muitos deles – respondeu mecanicamente, como se a resposta fosse decorada, mas ela sabia que não era.
Parou por pouco mais de um segundo e continuou:
— Talvez tenha coisas só que você ainda não saiba. E segredo, como eu disse, é complicado. Eu creio mesmo que não os tenha, tenho apenas histórias não contadas. Porque ainda não pude contá-las.
Laura mexeu sua cabeça, sacudiu o cabelo para o lado, baixou o queixo e colocou a mão direita sobre o copo:
— Mas oras, isso é um belo de um segredo.
— Isso é um segredo? – e riu ele mais uma vez.
— Sim, é um segredo para mim, era algo que você ainda não me havia contado – sorriu ela de volta, dando mais um nó no cabelo.
Com um sorriso no rosto, ele jogou:
— Bom, eu não sei de segredos, sei de confissões eternas.
— Tipo?
— Oras, a gente vai contando as coisas: “então, isso aconteceu comigo uma vez…” ou “olha, eu já fiz algo assim”. E por aí vão as histórias. As coisas são sempre assim, eternamente nesse ciclo de historias pra contar
O queixo já estava todo solto na mão esquerda e o copo já havia suado o bastante, Laura praticamente o engolia com os olhos:
— É estranho isso.
— O que e por quê? – disparou ele, sem pensar.
— Esse ciclo de histórias para contar. Não sei explicar bem, mas é estranho.
Pedro olhou com aquela interrogação ligeira e ela continuou sem pergunta alguma:
— Essa eterna troca de possíveis coincidências ou de situações óbvias que não aconteceram com uma das partes… e como isso é divertido em todo o contexto.
— Bom, mas nem tudo é tão obvio… por exemplo, coisas são segredos quando não devem ser contadas ou quando um dos lados não quer isso seja revelado…
Respirou fundo, continuando:
— Mas são apenas histórias não conhecidas quando são deixadas dentro de cada um. Com a divisão de conversas e confissões essas histórias se tornam mais raras. E histórias comuns surgem. É aí, talvez, que os relacionamentos percam a intensidade: quando as histórias deixam de ser novidade ou não contadas, quando as novas tem atores e enredo já conhecido por ambas as partes.
Olhando para os olhos de Laura, refletindo-se bem no fundo de sua iris, soltou em um suspiro:
— Talvez um dos lados ache isso menos interessante. e vá viver outras histórias sozinho, seguindo o próprio rumo e encontrando pessoas com histórias ainda não contadas…
Num impeto, interrompendo o monólogo sobre o tesão nas relações, deixando uma palavra cortada na garganta de Pedro, Laura resgatou a sua indignação:
— Eu não acho que as histórias “sozinho” devem deixar de existir. É essencial!
— Mas elas deixam, porque são contadas logo.
As palavras foram disparadas por Pedro como um soco no estômago.
— Justamente – ela engoliu seca, fazendo aquela amargura do passado descer rolando feito pedregulho e areia até o âmago.
Ele continuou, em sua certeza das coisas:
— Você troca uma vida inteira de histórias por apenas algumas poucas que acontecem aos pedacinhos. Troca anos por dias, dias por algumas horas. Tudo se resume, se simplifica.
— As pessoas param de viver as próprias vidas pra viver compartilhando – ela devolve, tentando acertar de volta o soco no estômago e botar aquele concreto seco para fora.
— Mas no final, é compartilhado! Histórias e estórias que tem enredo concentrado e se diluem na mesmice. Cotidiano filho da puta que devora o bonito e o deixa cheio de cravos, espinhas, estrias e celulite.
Era para ser outro soco, mas não foi. Estava mais para um clinch. Laura se perdeu nos olhos castanhos claros de Pedro por alguns segundos e pode ver toda aquela verdade transbordando para os seus próprios olhos, verdes esmeraldas envoltos por luz caramelo:
— Acho mágico como você acompanha minhas viagens bizarras.
— Mas por que você acha mágico? Só sigo em frente, de certo modo, estamos compartilhando histórias – ele abre um sorriso maroto, que inunda tudo e que encerra com aquele duelo.
Entornando o copo, Laura solta, como que se fosse necessário um esforço pra não deixar as palavras tremulas:
— Porque ninguém acompanha. Quando eu acho alguém que acompanha, eu acho mágico.
— A magia talvez esteja no ponto chave: estamos interessados, de certa forma, no que o outro tem a nos falar. Então, porque não falar e dividir? Estou aqui, sentado nessa mesa, conversando com alguém super interessante e dividindo sem pudor. Tento me interessar pelo que você acha interessante.
Um nó se fez, voltas e voltas. Laura já não sabia se aquilo era um flerte ou um belo de um fora:
— Simplificando e enrolando menos: estamos na mesma vibe.
— É bem isso. E é isso que eu quero dizer com “não deixar de compartilhar coisas”…
Com uma certa ironia e tom de “como você não entendeu?”, Laura faz os sinais de aspas com as duas mãos, deixando em um sorriso suas covinhas a mostra:
— Todo mundo tem suas bizarrices. Todo mundo faz perguntas sem resposta todo dia. E é sempre bom ter alguém pra dividir isso. Quando acaba, acaba a magia.
Entre bons risos, Pedro responde, com um bom humor atípico:
— Sempre tenho algo a dizer, mas é que eu falo pra caralho e quando não falo imagino!
— Sou boa ouvinte. E curiosa. Normalmente eu pergunto mais ainda.
— Fodeu, vou ficar rouco eternamente – e entre mais risadas, continuou – ou louco.
— Eu posso ficar surda. E mais desbaratinada.
Laura finalizou com mais risadas, o papo estava tão bom que pareciam amigos a anos. Mas Pedro não perdeu a oportunidade e com uma das sobrancelhas erguida, como aqueles vilões de filme barato ou modelos que se acham donos de feições geniais, soltou em um impeto:
— Prometo falar pouco quando estiver muito perto dos teus ouvidos.
Nesse ponto Laura já não se segurava mais, não sabia se era a sua segurança natural ou o efeito das cervejas. Não sabia ainda se era o efeito colateral daquele bom humor contagiante daquele estranho-tão-conhecido:
— Ah, não se segure…
— Não costumo me segurar pra muita coisa.
Acabaram em risadas aquela sequência de golpes verbais trocados.
— Como disse Jimmy London: “o segredo do sucesso é a moderação”. E eu acho muito que isso não se encaixa pra 70% das coisas. Só pras 30% chatas, logo…
— Sorte a minha, pois eu não consigo ser muito moderado, não.
Entre risadas:
— Nem o Jimmy conseguia. Já disse: você não precisa se conter muito comigo.
Provavelmente Pedro entendeu naquele momento que ela falava sério, talvez porque ela tenha estendido uma das mãos e segurado a sua, que repousava sobre a mesa, ou talvez fosse apenas porque os olhos verdes de Laura brilharam engolidos por alguma força intangível e inominável.
— É? Você gosta de atiçar esse estranho aqui.
E com o maior cinismo do mundo, ela respondeu:
— Euuuuu?
— Sim, você.
Pedro praticamente usou da voz inquisidora do Christopher Lee para soltar essa sentença. Talvez até tenha encarnado um pouco de Conde Doku ou de Saruman para devolver o golpe.
Na inocência da resposta e do cinismo metódico, ela soltou as palavras, como uma criança que explica aos pais porque está toda suja de lama nas roupas novinhas:
— Oras, eu só não gosto que tenham limites que eu não pus. Todo mundo tem. E todo mundo pode ir até ele. não tem necessidade de cuidados especiais se os limites não foram impostos. se forem, aí sim.
A piada estava pronta e com sorrisinho maroto, ele levanta uma figa com a mão direita:
— Vai impor limites pra mim?
— Normalmente eu não dou certas liberdades pra todo mundo. E o todo mundo que eu estou falando é o tal do senso comum que, pra mim, não sabe lidar comigo. Mas quando eu, digamos, libero certas coisas, não precisa ter dedos comigo! Daí, as chances de eu colocar algum limites são beeeeeem pequenas.
As covinhas aparecem novamente, estampando aquele ar maroto de menina colegial. Isso deixa Laura com aquela idade escondida e tira um grande “Hmmmm” seco de Pedro. Armanda com a indagação pronta, ela devolve:
— E o que foi esse mugido?
— Tentando entender de forma simples e sem ler nas entrelinhas – encerra com uma passada longa de mão nos cabelos, dando uma de “não estou entendendo nada, mas já pesquei tudo”.
— Ainda não tem nada nas entrelinhas não… e eu disse AINDA.
— Calma, calma, foi só uma uma piadinha! Fiquei sem jeito, assumo.
— Eu sei, estava estampado na sua cara e nessas bochechas coradas!
— Tudo bem, tudo bem. Vou assumir que você não precisa colocar nada nas entrelinhas! Sei disso. E já liberei o acesso a mim sem isso.
Risadas, de ambos. E mais dois goles de cerveja para cada.
— Eu raramente uso entrelinhas – ela diz, segura e enxugando a espuma de cerveja dos lábios.
— Já eu, gosto de usá-las um bocado. Fato.
— Mas eu só o faço em situações especiais, que podem ser positivas ou negativas.
— É, agora estamos com um problema, porque disse que gosto muito de entrelinhas, mas esse papo está direto demais!
— Eu já não sei de muita coisa, na verdade. Talvez seja a cerveja, mas o fato é que eu SOU muito direta – e entre risadas – e você me diverte mesmo.
— Divirto? E vc me desconcerta um pouco. Dá uma tonteirinha de tanto interesse. E não sei o real motivo… oras, apenas fico muito curioso sobre você… e interessado. Com vontade de explorar mais.
— Como um gatinho conhecendo a casa nova!
— Exatamente! Isso, um gatinho em casa nova, mas que não anda mais abaixado e arisco.
— Arisco?
— Sim, cauteloso e tímido com relação às coisas que possam me devorar.
— Mas eu ainda posso te devorar, hein?!
— Pode sim, mas agora eu não ligaria, seria interessante e saboroso. Espero que você faça isso. Do fundo do coração espero que aja como a Esfinge de Édipo.
— Não diga que você não deixou.
— Mas eu deixei!
O telefone celular de Pedro toca. Ele atende como um relâmpago.
— Olá, meu amor! (…) Sim, estou na sinuca, conheci uma garota muito interessante. Você precisa conhecê-la, vai adorar falar com ela. Falamos sobre tanta coisa… tudo bem. Estou te esperando ainda, na mesma mesa de sempre.
— Você é…
— Sim, sou casado a dois anos. O nome dele é André. Nos conhecemos aqui, nesta mesma mesa, falando sobre a impossibilidade de se arrumar um homem fiel hoje em dia, principalmente entre gays.
— Ah…
André chegou e no restante da noite tiveram ótima conversa, os três, falando sobre as coisas, sobre os sonhos e os interesses.
Na volta para casa, Laura só tinha um enorme sorriso no rosto e uma sensação estranha que não sabia descrever, algo que lhe dava uma paz de espírito nova, como se tivesse feito sexo bom pela primeira vez em sua vida. Não, não pensem na perda da virgindade, mas sim naquela trepada boa que deixa você com um sorriso bobo por alguns dias.
A explicação veio em uma epifania: tudo isso, com certeza, era porque o sublime continuou sendo um momento e mais um amor havia deixado de nascer – como tudo o que nasce, ele haveria de ficar velho e cheio de rugas, congelou-se na possibilidade e se tornou o amor mais bonito que Laura haveria de ter em toda a sua vida.
O não realizado é o que nos move a seguir.
Por Fernando “Poe” Bellentani, com ideias fantásticas de Lisie, amiga minha que me ajudou a juntar uma história com viagens malucas e sentimentos perdidos. Encerrada em em 28 de dezembro de 2009. Resolvi publicar somente hoje, para que ele seja mais uma das histórias em correção eterna.